Convento da Graça

37° 8' 12.984" N
8° 1' 15.816" W

Mosteiro de S. Francisco

Primeiros tempos
Continuamente agredido





O Convento da Graça, ex-Mosteiro de S. Francisco, foi provavelmente o mais notável edifício religioso de Loulé. Construído em 1328, persiste ainda alguma dúvida de quem o construiu. Algumas fontes indicam que é um dos raros testemunhos de Franciscanos Claustrais no Algarve (opinião de Santuario Mariano), outras que é um testemunho Templário (Chorographia do Reyno de Portugal). Infelizmente foi um dos edifícios que bastante sofreu com o terramoto de 1755, e hoje, além de poucos detalhes que lá se encontram, resta-lhe um magnífico portal gótico, dominado por um pentagrama, que nos deixa a imaginar como seria este convento...

Primeiros tempos

Loulé é conquistada aos árabes pelas tropas de D. Afonso III em 1249. A população era composta por mouros e cristãos moçárabes. Estamos numa época em que as evangelizações de territórios conquistados eram feitas normalmente por ordens mendicantes e Loulé não foi excepção. Em 1328, é construído o Mosteiro de São Francisco, dos frades Franciscanos Claustrais que chegaram (talvez logo após a conquista de Loulé - ver nota abaixo - mas ainda sem autorização papal para a construção de igrejas obtida apenas em 1312 com o Concílio ecuménico de Viena) com a finalidade de evangelizar os habitantes. Em 1330 é constituída a custódia de Évora, a 3ª em Portugal, e a ela pertencem os conventos a sul do Tejo, sendo apenas dois localizados no Algarve: o de Loulé e o de Tavira.

Nota

Como já foi referido, algumas fontes sugerem que este convento terá pertencido aos Templários e que provavelmente foi construído pelos mesmos. A arquitectura do portal não parece coadunar-se com a arquitectura típica Franciscana, já que estas eram simples, de acordo com o estilo de vida dos frades Franciscanos, mas este fato não prova que não tenham realmente sido eles nem comprova que não possam ter sido, mais tarde em 1580, os frades Agostinhos a construí-lo. Contudo, no séc. XIII, os Cavaleiros Templários eram uma força imprescindível na conquista de território aos muçulmanos e eram recompensados com terras e poder político.

Ora, apenas 79 anos após a conquista de Loulé (em 1249), é que surgem (oficialmente) os frades Franciscanos neste convento. Após as conquistas, a defesa das cidades era de extrema importância bem como a presença de ordens cristãs que evangelizassem a população. Permanece a dúvida: teriam os Cavaleiros Templários, colaborando na conquista de Loulé, recebido aquela propriedade e lá construido o convento?

Em 1312, no Concílio de Viena, foi dissolvida a Ordem dos Cavaleiros Templários que vem a desaparecer (aparentemente) em 1314, com a morte do suposto último Grão Mestre Jacques de Molay. D. Dinis conseguiu transferir várias propriedades da extinta Ordem para a Ordem de Cristo (na realidade a mesma Ordem dos Cavaleiros Templários mas protegida pela mudança de nome em Portugal) fundada em 1319, seria o caso deste convento? Será possível, inclusivamente, que ambas as versões, coexistam... Os frades Franciscanos não tinham propriedades, viviam nelas...

A 2 de Junho de 1405 é realizada uma sessão em que os responsáveis do Concelho decidem oferecer ao convento mil ladrilhos e vinte cargas de cal como apoio à reparação do alpendre do claustro. Este é um dos raros registos da existência de obras no convento.

A Observância vem crescendo ao longo dos anos e vários conventos claustrais são transformados em observantes. Em 1517, ano em que Claustrais e Observantes são jurídicamente separados, existem dois grupos de observantes em Portugal, a Regular Observância e a Estreita Observância (mais rígida). O convento de Loulé, pertencendo à província dos Algarves, faria então parte da Regular Observância fundada nesta província neste ano de 1517. Em 1567, o Papa Pio V emite uma breve ordenando que todos os conventos claustrais fossem agora integrados como observantes.

Em 1580, ano em que Portugal entra na dinastia Filipina, ou seja, na coroa espanhola, os frades Franciscanos saem do convento e o Cardeal D. Henrique entrega-o aos frades Agostinhos, para desagrado de vários louletanos e deixando a população dividida. Não se sabe em que estado de ruína estaria o convento nesta altura, sabe-se apenas que as igrejas construídas pelos Franciscanos eram simples, de acordo com o modo de vida deles. Caso os Franciscanos tenham sido os construtores do convento - ver nota acima - , terão então, muito provavelmente, sido os Agostinhos que o remodelaram e lhe deram os majestosos aspectos arquitectónicos, como é o caso do portal que ainda hoje podemos ver. É com a entrada da Ordem de Santo Agostinho, 1580, que o convento passa a designar-se por Nossa Senhora da Graça.

Continuamente agredido

Em 24 de outubro de 1587, dá-se um dilúvio em Loulé, provocado por chuvas intensas, que destroi e leva 110 casas e a vida de 62 pessoas e que terá também afectado o convento. Esta catástrofe repete-se a 1 de janeiro de 1692. O convento é bastante arruinado pelos grandes terramotos que se fizeram sentir por todo o país de 1722 e 1755. No terramoto de 1 de Novembro de 1755 morreu neste convento uma mulher com a queda dos muros. Apesar do convento continuar a cumprir a sua missão, os frades foram obrigados a construir algumas casas em terrenos anexos. Em 1833, guerrilhas de liberais e absolutistas provocam tiroteios matando várias pessoas e invadem o convento onde todo o arquivo é queimado. Os liberais vencem, e assim, são extinguidas todas as ordens religiosas.

O convento da Graça é vendido por 500$00 (tinha ainda duas cercas que foram vendidas por 300$00) e a sua degradação não parou. Em 12 de Janeiro de 1856 dá-se outro grande terramoto com várias réplicas que arruina ainda mais o convento. A 25 de Julho de 1861 a vila revolta-se contra os impostos e o povo é inspirado a queimar as matrizes.

Foi abandonado, e passou por vários titulares, sofreu a construção de pequenas habitações particulares utilizando como base as capelas laterais e deixando algumas lajes antigas que serviram de campas mortuárias como solo bem como outros testemunhos decorativos do convento. Estas pequenas habitações transformaram o convento numa rua e, para finalizar, a capela-mor foi demolida para urbanizar a área. Felizmente, essas obras de urbanização foram entretanto interrompidas e foram previstos mais estudos sobre o convento...

Hoje, podemos lá encontrar o portal de entrada e algumas ruínas de paredes. Consegue-se ainda ver os restos do que teriam sido as duas colunas que suportariam todo o arco triunfal da antiga capela-mor de estilo gótico. Encontramos ainda as casas particulares, restos de plantas e árvores cortadas entre outros aspectos que apenas irão deteriorar ainda mais o pouco que resta deste convento. Foram também transferidas para a Igreja de S. Clemente algumas peças daqui oriundas como é o caso da imagem de Santo Agostinho e da Nossa Senhora da Graça. O Convento da Graça foi decretado Monumento Nacional em 20 de Junho de 1924.

Obras consultadas

Livros:
- Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal, Tomo III - António Carvalho da Costa, 1712
- Monografia do Concelho de Loulé - Ataíde Oliveira 4ª edição, 1998
- A Arquitectura no Algarve - dos primórdios à actual - José Manuel Fernandes e Ana Janeiro, 2005
- Antigos Conventos do Algarve, um percurso pelo património da região - Catarina Almeida Marado, 2006
Sites:
- http://www.editorialfranciscana.org
- http://www.franciscano.org.br
- http://www.paroquia-sdrana.org/
- http://www.cm-loule.pt
- http://radix.cultalg.pt
- http://www.igespar.pt
- http://www.dre.pt/
- http://www.fcsh.unl.pt
- http://algarvepressnews.blogspot.com
- http://www.mosteiroalcobaca.pt
- http://www.arqnet.pt
- http://www.online24.pt
- http://www.ordemtemplarios.org.br/
- http://dancandoembrumas.blogspot.com
- http://www.conscendo.org
Artigos:
- Arquitectura Tradicional em Loulé - Pedro Alagoinha Nascimento, 2010